Se Umbuzeiro Falasse … A Peleja entre o Umbuzeiro e o Roçador

Se Umbuzeiro Falasse … A Peleja entre o Umbuzeiro e o Roçador

Por Marialvo Barreto

Se você ainda não sabe
Vou lhe dizer o que é
O umbuzeiro é uma planta
Que na caatinga tem pé
Resistente a toda seca
Sagrado pra quem tem fé

É um símbolo do Nordeste
Onde o sol é de rachar
No tabuleiro e na serra
Em todo lugar estar
Só existe no sertão
Porque este é seu lugar

É uma moita fechada
Capricho da natureza
Sua sombra é muito fresca
É grande a sua beleza
Umbu é como se chama
O fruto que vai pra mesa

Da caatinga é a rainha
Das plantas que Deus criou
Alimenta rico e pobre
Analfabeto e doutor
E o sabor da sua fruta
Nosso povo consagrou

O sertanejo é quem chama
Sua fruta de imbu
E serve de alimento
Para mico e caititu
Pra bode, cabra e ovelha,
Guará, raposa e tatu

Tem umbu que é bem doce
Como o mel de uma flor
Também quando é azedo
Na boca chega dar dor
Faz bode berrar zangado
Relegando seu sabor

Tem umbu liso e redondo
Verde, maduro e inchado,
Grande, médio e pequeno,
Tem até umbu rachado
Tem do caroço miúdo
Pra se chupar descascado

A coisa que mais me alegra
É ver umbu “fulorar”
E escutar as abelhas
Com zum-zum-zum a voar
Ver o renovar da vida
Presente neste lugar

Na época das trovoadas
Depois do mês de setembro
Sua safra é de fartura
Ainda bem que me lembro
Do chão forrado de frutas
Em pleno mês de dezembro

No sertão tem o costume
De umbuzeiro dar nome,
Tem pé de umbu da pedra
Da cobra e do vagalume,
Da onça e da vaca seca
Da cacimba e do velame

Tem umbuzeiro de Tonha
De Zé de Sarapião,
De Zeca de Zé Pretinho
De Rosa e Mané Bião
De Bidé da Gameleira
E de Cosme Gavião

Outras frutas da caatinga
Correm o risco de acabar
Já não vejo mais o icó,
Cambuí e cambucá
Ah! Como tenho saudade…
Do gosto do trapiá

Quando o umbuzeiro cresce
Na beira de uma estrada
É açoitado de vara
Recebe muita pedrada
Fica todo arrebentado
De tanto levar pancada

A folha do umbuzeiro
É alimento sagrado
No desespero da seca
Vira comida de gado
E todo bicho que vive
Pelo sertão embrenhado

Mas nem tudo é alegria
Pelas grotas do sertão
Tem fazendeiro malvado
Raivoso e sem compaixão
Cortando pé de umbu
Pra plantar capim no chão

Devasta toda a caatinga
Sem dó e sem piedade
Corta até o umbuzeiro
Na mais dura crueldade
Sem falar no juazeiro
Pra completar a maldade

Acho muita malvadeza
Tirar raiz de umbuzeiro
Pra fazer doce de corte
E se trocar por dinheiro
E prejudicar a planta
No período do sequeiro

Se o umbuzeiro falasse
Eu passei a imaginar
Como seria a peleja
Com quem fosse lhe cortar
E leia com atenção
O que tenho pra contar

U aqui é umbuzeiro
R aqui é roçador
Vai ser uma peleja dura
De sentimento e de dor
Entre a bela natureza
E o ser devastador

U – Aqui eu nasci e cresci
Na seca deste torrão
Espalhado em toda parte
Pelas brenhas do sertão
Forneço sombra e alimento
Aos viventes deste chão

R – Estou de foice na mão
Pelo patrão enviado
Vou roçar esta caatinga
Deixar o mato virado
Arrumar tudo em coivara
Que pasto vai ser plantado

U – Com mais de quinhentos anos
Que nesta terra nasci
Nunca vi o seu patrão
Catando umbu por aqui
Vá e pergunte pra ele
Qual foi o mal que lhe fiz

R – O capataz me chamou
Pra fazer este serviço
Foi a mando patrão
Não vejo nenhum mal nisso
Receber sete reais
De diária o compromisso

U – Se você catar umbu
E for à feira vender
Vai aumentar o valor
Em dinheiro pra você
Vai dar sete vezes sete
É só conferir para crer

R – Mas se o imbu está verde
Como é que vou fazer?
Se já tivesse maduro
Quem sabe não ia ver
Se eu enchia um balaio
Pra na cidade vender

U – Sua pressa é sem razão
Veja o que vou lhe contar
Apressado come cru
Diz o dito popular
Estou lhe dando um conselho
Só quero lhe ajudar

R – No aço da minha foice
Ganho o pão de cada dia
Sustento mulher e filho
Lá na minha moradia
Vou derrubando caatinga
Que acho sem serventia

U – Deixe de ser rude homem
Que por aqui já lhe vi
Chupando umbu maduro
E quebrando licuri
Comendo fruta de palma
E caçando juriti

R – Isto já faz muito tempo
É coisa do meu passado
Na minha morada agora
Tem velhinho aposentado
Do mato tenho lembranças
De quando ‘tava apertado

U – Ainda me lembro bem
Quando aqui você chegou
Fez o trabalho e sumiu
Deixando grande fedor
Mas do umbu tinha caroço
Na “ruma” que tu deixou

R – Se imbuzeiro fosse
Planta que desse dinheiro
Seria coisa difícil
Só tinha no estrangeiro
Mas como só dá imbu
Vira pau de galinheiro

U – Do umbu faz doce e suco,
A saborosa umbuzada,
Vai misturada com leite
Com açúcar é adoçada
Reforçando o sertanejo
Na sua dura jornada

R – Faltam 10 pra meio dia
Vou a panela esquentar
A barriga já roncou
Vou minha fome matar
Debaixo deste imbuzeiro
Depois vou me descansar

U – Minha sombra agora serve
Para a tua maresia
Vou açoitar os meus galhos
Na força da ventania
Para lanhar as tuas costas
Cabra ruim sem serventia

R – Praga de urubu magro
Em boi gordo ela não pega
Aqui nesta terra vi
Saci montado na jega
Quebrando pé de imbu
Diabo que te carrega

U – Já comeu e descansou
Na sombra que eu te dei
Vai dizer pra teu patrão
Que o umbuzeiro é rei
Das plantas da caatinga
Está escrito na lei

R – Você quer me enrolar
Com esta conversa mole
Vou afiar minha foice
E depois tomar um gole
Pra enfrentar o roçado
E sustentar minha prole

U – Eu pensei que tu pensavas
Mas tu és cabeça dura
Do oco de baraúna
Nem o diabo te atura
Parece que tu és dele
A mais baixa criatura

R – Eu sou cristão batizado
Por São Cosme e Damião
Na capela de Santana
Rezo e tenho devoção
E no terreiro de Oxóssi
Faço a minha obrigação

U – Tua foice é arma fria
Que corta sem piedade
Quem ordena é teu patrão
Que mora lá na cidade
Tu vivendo na miséria
E ele na vaidade

R – O patrão quer terra limpa
Sem nada pra sombrear
No lugar de imbuzeiro
Plantar capim e zelar
Pra engordar a boiada
Mangote de marruá

U – Por aqui eu já estava
Quando o teu patrão chegou
Neste pedaço de terra
Que por teu avô passou
Deste modesto umbuzeiro
Muito umbu ele chupou

R – Conte esta história direito
Quero saber tudo agora,
O que teve o meu avô
Com esta terra outrora?
Responda com precisão
Pois tudo tem sua hora

U – Esta história é complicada
E posso lhe assegurar
Que seu avô era dono
De todo este lugar
E tirava da caatinga
O que ela tinha pra dar

R – Se meu avô era dono,
O que foi que aconteceu?
Se tinha família grande,
Por que será que vendeu?
Se também ninguém herdou,
Nem mamãe, nem pai, nem eu

U – Não foi venda foi um fato
Que a terra estremeceu
Teu avô foi emboscado
Tomou um tiro e morreu
Da arma do teu patrão
Que mandou tu matar eu

R – Minha foice agora pára
Não corto mais imbuzeiro
Esta terra ainda é minha
E não troco por dinheiro
Vou procurar a justiça
Pra não virar justiceiro

U – Viver muito eu agradeço
Foi a minha salvação
Isso faz cinqüenta anos
Que vi esta confusão
Veio me servir agora
Pra permanecer no chão

R – Não corto mais imbuzeiro
Escreva o que vou dizer
Do imbuzeiro o imbu
Da caatinga o bem-querer
No ronco da trovoada
Ver o mato florescer

U – Estou ficando sozinho
Só se ver pau derrubado
Já se foi a quixabeira,
É fogo pra todo lado
Até a Jurema preta
Tem seu destino selado

R – Minha foice derrubou
Muita jurema e arueira
Pau-de-rato e calumbi
Umburana e gameleira
Pra vender lenha no metro
E fazer compra na feira

U – O que tu diz é verdade
Não sei como aqui estou
No último roçado feito
O fogo me sapecou
Por sorte o vento virado
Pra chuva o tempo mudou

R – Até raiz de imbuzeiro
Já fui pro mato arrancar
Ralava em ralo bem fino
E espremia pra tirar
Água doce e cristalina
Pra minha sede matar

U – Você ainda tem jeito,
Percebe que eu servia,
Te dei água no passado
Também te dei rancharia
Tu namorando na moita
Quando a noite escurecia

R – Fico muito encabulado
Com esta sua intimidade
Isto já faz tanto tempo
Estava na flor da idade
Com a cabocla Rosinha
Eu me casei na cidade

U – Aqui eu vi o passado
Aqui estou no presente
Alimento a bicharada
O bicho temido é gente
Que roça e ateia fogo
Pelas costas e pela frente

R – Eu não pego mais em foice
No mato vou semear
Semente de imbu doce
Do que eu gosto de chupar
Nunca mais faço a besteira
De um Pé de imbu cortar

O umbu foi vencedor
Nesta estória que criei
Que quiser que conte outra
Porque esta eu já contei,
Externando meu desejo
Nas palavras que rimei.

O Autor: Marialvo Barreto, é nascido em Ipupiara, Bahia, filho de Amélia Barreto Cunha e Teotônio Barreto, estudou geografia na UFF em Niterói, professor universitário aposentado da UEFS-Universidade Estadual de Feira de Santana, foi vereador na mesma cidade por 2 mandatos. É escritor, poeta e cordelista. Conservacionista implanta o projeto de Recatingamento na sua pequena propriedade Flor de Alecrim no povoado da Matinha em Feira de Santana .

Chocolate com Umbu

Chocolate com Umbu

Como é possível unir duas paixões tão distintas?

O Umbu é uma fruta tipicamente brasileira, endêmica, por que só nasce no bioma Caatinga. Eu nasci em Seabra, no coração da Chapada Diamantina e centro da Bahia. Desde criança eu ficava sonhando em chegar o mês de dezembro, não só por causa do Natal, dos presentes comerciais, mas dos presentes naturais. Dezembro é mês de umbu e de mangaba, mas, sobre as mangabeiras, serão outras escritas.

Após provar um chocolate de umbu eu senti uma vontade avassaladora de escrever, dentro de mim algo estava pujante, deixei até de ir num compromisso ambiental, por que as palavras estavam me dominando.

Voltemos a infância em Feira de Santana, onde tem umbu, mas são mais tímidos, árvores menores, tinha muito mais cajá, então eu ficava sonhando com a viagem para Seabra na casa de vovó Amélia e chegar na feira e ter aqueles umbus enormes que vinham de Oliveira dos Brejinhos ou da Prata . Quando comecei a andar por Irecê e Jussara, e, descobri a roça de tio Licínio, foi uma paixão avassaladora, cada umbuzeiro digno de batismo e tombamento. Assim como na cidade de Sabará alugam 1 pé de jabuticaba para chupar, deveriam fazer com o umbuzeiro. É tanto umbu gostoso e diferente que fico imaginando a injustiça e tristeza de bilhões de pessoas no mundo que desconhecem este alimento. Partindo desta ótica, eu sou privilegiada demais, conheço centenas de pés de umbu.

Da infância para adolescência, parece aquela passagem de tempo de novela brasileira, mas com uma marca indelével, os dentes manchados de umbu, e desgastados, cada dia os dentes frontais mais deformados e quase sem solução, doíam e muito chupar umbu e tem as técnicas ancestrais de morder o galhinho novo de umbu para a resina proteger os dentes. Fiz tudo isso e faço, mas o desgaste vem.

Nada resolveu, fui até a idade adulta sofrendo com idas ao dentista e as técnicas de chupar umbu com uma faquinha na mão viraram rotina, por que agora sou proibida de morder virulentamente o fruto, é tudo descascado com a faca afiada e colocado na boca com cautela. Andanças e andanças mil, até que me mudo para Ilhéus, para estudar direito. Aqui não tem umbu, aqui é Mata Atlântica e Cabruca cheinha de cacau. Outro fruto entra em minha vida. Mas, na Bahia, tem a história dos ambulantes, então chega umbu nos carrinhos de mão, nas ruas do centro, na feira livre, mas nada se compara a chupar no pé, com aquela casca verde crocante, é uma sensação inigualável, única, um deleite aos ouvidos o “croc croc”, um sabor irresistível do cítrico e do açúcar. Chupar umbu no pé deveria ser atração turística com cobrança de ingresso e ticket.

Belo dia, descubro que meu pai escreveu um cordel com o título : “SE UMBUZEIRO FALASSE”, é uma obra prima da escrita e da poesia popular, Marialvo é geógrafo e chapadeiro de Ipupiara, amante da caatinga e conservacionista. Eu lia o texto e ia me derretendo em lágrimas, sonho em poder musicar e transformar numa peça de teatro, ou numa opereta, é uma obra prima da sociologia rural, das disputas de terra e injustiças sociais no campo e da biologia da conservação, só quem domina muito a língua e o tema é capaz de escrever com tamanha maestria. Sonho que este poema seja conhecido por todo o mundo.

Então a paixão pelo umbu, foi crescendo, pelo prazer do paladar, pela escrita de meu pai, pela importância da árvores no sertão e na ecologia.

E os dentes sofrendo, sofrendo ao ponto de todas as fotos de viagem ficarem sempre com aquele dentinho manchado, de tanto desgaste natural com o cítrico da fruta.

Só que o umbu começou a ter concorrência, a mudança para estudar nas terras grapiúnas de Ilhéus foi ficando mais longa, pós graduação, trabalho, casa própria, casamento, envolvimento comunitário e Cacau entrou definitivamente em minha vida. As viagens para Seabra e Feira de Santana ficaram menos constantes e o fruto ouro foi entrando sorrateiramente no meu cotidiano. É suco de cacau, é mel de cacau, é licor de cacau, é geleia. Mas, o chocolate fino foi bem devagar, a primeira vez que provei foi em 2004 na eleição para reitoria a UESC, o marido de professora Adélia, então candidata, trazia de lanche pra gente, uns bombons maravilhosos. Fausto nem podia imaginar o que fez conosco, despertou sensações únicas, momentos sensoriais impressionantes.

Mas não era fácil de achar e tudo ainda era muito novo neste universo em Ilhéus, a pobreza em face da crise econômica assolava as propriedades e fazendas. Até que um dia fui para um evento regional que se chama Festival do Chocolate, de stand em stand fui conhecendo um universo mágico e daí em diante não parei mais de provar essas “barrinhas”. São aventuras semanais de experimentação, até que na loja da Dengo onde vende multimarcas, me deparei com uma barrinha de Chocolate 70% e Umbu. A curiosidade foi imediata, oxe? como assim ? como pode ? quem faz ? quem criou ? quanto é ? como é ? da onde vem ? cheguei em casa e fiquei olhando a embalagem até decifrar este mistério, e bote oxe? melhor oxe oxe oxe, a gente repete 3três vezes.

O nome da barra é Mission Chocolate. Não sei nada sobre a marca e os idealizadores e isso que me encanta, escrever no escuro, não vi nada nas redes sociais, não li, não estou sugestionada, posso falar com pureza.

Eu já tinha algumas preferidas e agora aumentou a listinha das prioridades. Assim como Umbu é uma espécie funcional de grande relevância ecológica, esta barrinha ganhou grande relevância no meu universo particular de deleite.

São quadrados de geleia de umbu milimetricamente adicionados na barra, como uma obra de arte geométrica. Não sei quem criou isso, só sei que biologia da conservação é matemática, é cálculo, é estudo. Chocolate fino também, é o que vi e senti, até a embalagem é de uma delicadeza artística elaborada.

Um fruto amazônico e outro catingueiro, um fruto doce e outro ácido, um fruto da abundância de água e outro da escassez, um fruto de casca dura e outro de pele tenra, um fruto de sombra e outro de sol, e nesta dicotomia de frutos protegidos por povos ancestrais que se unem duas paixões que carrego em minha alma. Cacau e Umbu. Um muito obrigada às mãos talentosas que fez este chocolate que parece ser uma missão de vida como diz o nome da marca que acabei de conhecer.

Sobre os dentes? Ainda bem que surgiu a tal da faceta de resina e agora posso morder umbu de novo no pé, paixões preservadas pelo ecossistema e pela minha dentista.

Leia também : Ode ao Mel de Cacau – poema lírico e neoparanasiano sobre o líquido precioso e raro

Ilhéus precisa Renascer– crônica sobre conjuntura política e a nova versão da novela da Globo

A decadência extrema– crônica sobre o centro histórico de Ilhéus e suas vivências

Cometi um crime- Mulher viajando sozinha??

Cometi um crime- Mulher viajando sozinha??

por Jurema Cintra Barreto- advogada feminista


Precisei fazer uma viagem ao Rio de Janeiro tanto a trabalho como visitar parentes e parece que cometi um grave crime: EU VIAJEI SOZINHA

Desde que voltei estou angustiada pensando nesta crônica, primeiro pensei em intitular de : o Homem Invisível , porém como sou advogada, puxei pelo lado jurídico.

Sim, uma mulher viajar sozinha, para uma grande capital parece o cometimento clássico de um crime. Existe todo um modus operandi do turismo : Casal? Família? Amigos? Grupos de Excursão? Mas viajar só parece um crime aos olhares alheios.

CENA DO CRIME – PARTE 1

De cara quando você chega no hotel  vem uma frase que ouvi 2 vezes nos  hotéis que me hospedei :

– Está esperando alguém? Mais alguém para se hospedar?

Senhoras e senhores, eu fiquei pasma!! Levei na esportiva, mas não deixei de comentar:

– Senhora na minha reserva diz o quê?

–  1 pessoa?

–  Então 1 pessoa, é 1 pessoa… algum problema? É “estranho” ver mulher sozinha?

–  Não, não, me desculpe, boa estada!

Sabe, ninguém foi descortês comigo, ou mal educado, mas a semiótica das frases e perguntas eram lamentáveis. Eu cheguei sozinha, desci do táxi sozinha, estava sozinha no balcão, tinha apenas 1 mala, e me pergunta se o quarto é para 1 pessoa????? Valei-me!!!! Santo machismo!!!!

Eu fico a imaginar… … era um Hotel 4 estrelas, no Rio e Niterói … fiz reservas com antecedência, já estavam pagas, no sistema do hotel aparece 1 pessoa, 1 quarto. E as perguntas são tão machistamente absurdas que fiquei a imaginar situações bizarras tão quanto a pergunta?

  • Será que a recepcionista do Hotel tem esquizofrenia e vê vultos e pessoas??? Por que eu estava sozinha no balcão, ninguém mais.
  • Será que ela é médium espírita(ressalvada a brincadeira) e via pessoas ao meu lado? Só pode ser meu anjo da guarda para me proteger de tais atos de machismo.
  • Será que lançaram o filme O HOMEM INVISÍVEL  e eu não estava sabendo?
  • Será que eu tinha cara de profissional do sexo e estava esperando alguém??? (e tem cara para isso??? sou advogada de várias prostitutas e tenho orgulho de defender mulheres)
  • Será que eu tinha cara de golpista, iria me hospedar sozinha e colocar alguém para dentro do quarto, dar um olé no Hotel? Vê se tenho cara de apoiar golpe?? minha gente só para lembrar #FORATEMER
  • nenhuma das respostas anteriores ….. AAAAAAHHHHHHH!!! A CRIMINOSA aqui estava sozinha mesmo. O julgamento moral é constante e permanente.

Aproveitei para dialogar humildemente com os recepcionistas, uma mulher e um homem sobre aquelas perguntas, eram estranhas, quem sabe eles não mudam a política.

CENA DO CRIME – PARTE 2

O que tem de mais carioca em comer bolinho de bacalhau e tomar um chopp escuro? HUMMM, adoro. Minha mãe é de Niterói, então é um hábito passado de mãe para filha. Você senta em qualquer barzinho delicioso da Zona Sul(que é um gueto, pena que o resto da cidade não seja assim, os cariocas de todos os bairros merecem uma cidade limpa, segura e saudável), aí começa nosso diálogo:

–  Mesa para 1 por favor?

–  Para 1?

–  Sim, para 1.

– Cardápio por favor?

–  aceita uma água ou suco?

–  hãaa, “whisky duplo por favor” ??? brincadeira

Outro Bar:

Você senta, pede uma cerveja, aí vem o garçom com 2 copos:

– Oi? 1 copo, só, por favor?

–  Está esperando alguém?

–  Por que estaria?

Se chegar outra pessoa ou pessoas com certeza eu pediria outros copos.

Mas uma mulher sentada sozinha no bar, é “incompleta”, somente um homem para fazer uma unidade.

Leia também: Salar do Uyuni sem Perrengues- aventura na Bolívia

                           Longa viagem pela América do Sul – o que levar na mala?

                           Reveillon em Vina del Mar- Chile

CENA DO CRIME – Parte 3

Sai sozinha para uma balada é cometer crime continuado, fui numa famosa casa de samba na Lapa. Já o começa pelo Uberista: Mas você está sozinha??? “Poxa!!!” Poxa de quê? Minha viagem está ótima! A outra : ” Você não tem medo? Andar sozinha?”??? Quase abro a página de Grande sertão Veredas e soletro Guimarães Rosa: “V-I-V-E-R  É MUITO ARRISCOSO”. Bem, ando de Uber justamente por que acho muito mais seguro.

Bilheteria:

–  1 ingresso , por favor?

–  Só 1?

–  Sim, só um?

Pede uma cerveja ao garçom, ele também vem com 2 copos, mas você está sentada sozinha na mesa, é demais, será que precisa de óculos, ou aquele homem invisível está do meu lado ainda? !!!

Aí sempre tem um engraçadinho puxando papo, algum até educado, sendo educado, eu não ligo não, eu  gosto de conversar e fazer amizades, sem flerte, claro.

Um engraçadinho passa e diz: – ô que pena, ela tá sozinha! pena de quem?, eu estava me divertindo horrores com a banda Blood Mary and Munsters.

Dançar sozinha: outro crime, ficam olhando, parecendo que sou ET e eu só mandando beijinho no ombro.

Definitivamente eu fui condenada, na compra de um ingresso do museu, no teatro, pelos garçons: a frase, está sozinha, ôôô!! Ainda ouvi a pérola “se fosse minha mulher eu não deixava não, seu marido deve sentir muito ciúme.” Uma preciosidade da machista língua portuguesa, análise sintática da frase, onde está o Sujeito? MORTO!!! Que nada!  Ando bem mais leve com relação a esses comentários, fui educada com o rapaz e mostrei o outro lado da coisa, e fiz ele pensar sobre esta frase tenebrosa, fizemos até amizade, hoje em dia, penso que devemos fazer enfrentamentos quando realmente é necessário e não gastar energia à toa. Se fosse rude com ele só estaria devolvendo a mesma violência que ele me disse, sim, é uma frase VIOLENTA. Sou dona de meu corpo, meus pés, meu destino. Escolhi caminhar junto de meu esposo e o respeito, mas isso nunca me impedirá de ter liberdade, ainda mais que era um compromisso de trabalho e familiar. Claro que o Rio de Janeiro continua lindo e aquele rapaz da frase VIRULENTA, me pediu desculpas e disse que não iria mais pensar assim, talvez minha gentileza tenha combatido o machismo, mesmo que só um pouquinho!!

GENTILEZA GERA GENTILEZA, apesar de tentarem me INVISIBILIZAR, fui altiva, fui, vi e amei! me reconciliei com o Rio de Janeiro e no próximo post eu darei dicas desta viagem incrível.

Leia aqui: Fiz as pazes com o Rio de Janeiro

A Decadência Extrema

A Decadência Extrema

          Por Jurema Cintra Barreto- advogada e defensora de Direitos Humanos

          Advogar é essencialmente caminhar pelo mundo. Nessa vida de audiências e carrascos prazos, visitamos várias Comarcas, cidades, presídios, enfim. Em Ilhéus , nosso escritório fica no Centro da cidade, bem no Calçadão da Marques de Paranaguá.

          Infelizmente Ilhéus não tem estacionamento rotativo, a Justiça Federal criou 1000 normas para pararmos lá, enfim estacionar no Centro é complicado e penoso. Em Itabuna depois da Zona Azul não passamos mais por esse suplício pois sempre há vagas.

          Eu que tenho tantas ressalvas sobre os flanelinhas, em Ilhéus, apenas em Ilhéus prefiro usar o velho método baiano. Paro no estacionamento “popular” , na frente da Caixa Econômica nova , onde ficavam os trapiches hoje demolidos.

          Boca é o nome do flanelinha; sempre sorridente, educadíssimo e em nenhuma momento opressor. Pelo linguajar e comportamento vê-se um lavador de carro diferenciado. Qualquer profissão tem aqueles que se destacam. Todos os dias cedinho ele está lá organizando os carros, orientando, nos socorrendo. Sim, socorro mesmo por que quando você tem uma audiência , um compromisso e não consegue estacionar, é desesperador, por tal motivo e também pela defesa do uso coletivo das vagas é que sou radicalmente a favor da Zona Azul nas cidades. Boca é um trabalhador de tamanha confiança que todos deixam até a chave do carro com ele, um manobrista clássico, que mesmo com todas as dificuldades que a vida deve ter lhe imposto, ele é um anjo naquele centro poluído.

          Bem, onde fica a decandência do título do artigo? 

          Quem estaciona e anda pelo Centro de Ilhéus, vê a miséria humana personificada nos usuários de crack, nos mendigos e favelados, nas pessoas em situação de rua, tão e tão frequentes.

          No muro do antigo trapiche que ficou de pé, vemos hodiernamente os usuários de crack, se esgueirando entre o muro e o mangue, para numa pequena fresta atravessar para sua cracolândia particular. Ali no muro, um grafite de porcos de capacete. Homens e mulheres esquálidos, animalizados, tomados pelo vício, absortos. 

          Ontem vi um homem idoso, ele até parecia meu avô mais moço, imediatamente fiquei em choque. Um idoso! Aquele homem me despertou para o tamanho de nossa decadência. Perguntei a Boca, o lavador de carro, se aquele era frequentadorcomum, por que eu nunca o tinha visto. Algumas figurinhas já são bem carimbadas: uma moça que fica 365 dias do ano grávida, já deve ser o sexto ou sétimo filho nascido na “boca”. Dois homens negros e altos, mulheres esquálidas.

          Boca, o lavador que não é da “boca” me fez um relato supreendentemente até então. Uma senhora de 70 anos frequenta a cracolândia de Ilhéus. Agora eu que fiquei absorta. A Prefeitura e sua estrutura social visitam o local frequentemente, assim continuou o relato, mas o poder desta droga não permite melhores avanços.

          Fico em dúvida se a Decadência é daquele idoso , ou minha e nossa que não conseguimos enxergar o ser humano, que sentimos medo de gente, que não fazemos pesquisas médicas e farmacológicas para banir o vício, ao invés culpabilizamos, criminalizamos, invisibilizamos essas pessoas. Tanta pesquisa sobre medicina estética enquanto para este grave problema de saúde pública, os pobres só tem alternativas questionáveis como os centros de apoio religioso. Digo os pobres por que famílias ricas, pelo menos, tem à disposição clínicas psiquiátricas bem caras. 

          E a Decadência de Ilhéus continua visível a olhos nus.